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Killologia aplicada: Distância e a dinâmica no combate corpo a corpo


O estudo da proxêmica, o espaço pessoal de indivíduos num meio social, é vital para o combatente urbano. O antropólogo Edward T. Hall descreve quatro tipos de distância:


. distância íntima: para abraçar, tocar ou sussurrar (15-45 cm);


. distância pessoal: para interação com amigos próximos (45–120 cm);


. distância social: para interação entre conhecidos (1,2-3,5 m);


. distância pública: para falar em público (acima de 3,5 m).


Porém a influência da distância vão muito além de nossas interações sociais do dia a dia, sendo um tema muito abordado na autodefesa, o autor americano o Tenente-coronel Dave Grossman em sua obra "On Killing" esclarece pela visão tática militar como funciona está dinâmica na mente do combatente. Nesta matéria vamos entender como reage a mente do combatente em relação a distância do inimigo em um combate de vida e morte.




Observação importante: As informações presentes nesta matéria são para o público maior de 18 anos, para fins de conhecimento didático, e treinamento combativo baseado na legítima defesa e estrito comprimento legal que estão em nossa constituição e Código Penal. O uso indevido dessas informações, bem como suas consequências é de responsabilidade única e exclusivamente de quem praticar e desobedecer a lei. Então use o cérebro.

Depois de ler a mensagem acima podem iniciar a leitura do artigo abaixo:

Matar à distância de armas afiadas, uma "brutalidade íntima"

Grossman nos alerta que em batalha a curta, média, e longa distância tem influência diferente no cérebro dos guerreiros, já que segundo o autor seria mais fácil atingir uma pessoa com um drone, ou com um tiro a longa distância de um sniper do que esvicera-lo com uma faca. Quanto menor a distância maior o comprometimento com a morte do oponente, maior o envolvimento. O sofrimento, a dor e a consequente morte do inimigo é sentida como algo real, e não apenas como um alvo que desaparece. O fator-chave como cita Grossman à curta distância é a certeza inegável da responsabilidade por parte do assassino. No Vietnã, o termo "morte pessoal" foi usado para distinguir o ato de matar um indivíduo específico com uma arma de fogo direto e matar a curta distância, estar absolutamente certo de ter feito isso sozinho. A grande maioria das mortes pessoais e o trauma resultante ocorrem nessa faixa.

De perto, o estágio de euforia, embora breve, fugaz e não mencionado com frequência, ainda parece ser experimentado de alguma forma pela maioria dos soldados. Contudo, este estágio de euforia é quase instantaneamente desaparece dando lugar ao estágio de culpa quando o soldado se depara com a evidência inegável do que ele fez, e o estágio de culpa é freqüentemente tão forte que resulta em repulsa física e vômito.


De perto, a resistência para matar um oponente é tremenda. Não é á toa que na segunda guerra mundia apenas 20 por cento dos soldados dispararam os seus fuzis, com treinamento anos depois subiu para 70 por cento no Vietnã, atingindo uma marca nos tempos atuais com treinamentos operacionais adequados a média de 98 por cento. Quando alguém olha nos olhos de um oponente e sabe que ele é jovem ou velho, com medo ou com raiva, não é possível negar que o indivíduo prestes a ser morto é muito parecido com você.


À medida que os homens se aproximam, torna-se extremamente difícil negar sua humanidade. Olhar no rosto de um homem, ver seus olhos e seu medo, elimina a negação. Nesse intervalo, a natureza interpessoal do assassinato mudou. Em vez de atirar em um uniforme e matar um inimigo generalizado, agora o assassino deve atirar em uma pessoa e matar um indivíduo específico. A maioria simplesmente não pode ou não vai fazer isso.



Combate corpo a corpo

É psicologicamente mais fácil matar com uma arma afiada que permite uma distância maior como uma lança, por exemplo, e cada vez mais difícil conforme o alcance diminui, como o uso de uma faca. Portanto, é consideravelmente mais fácil empalar um homem com uma lança de seis metros do que apunhalá-lo com uma faca de quinze centímetros.

Exército de Alexandre o Grande Armados com lanças.


O alcance físico fornecido pelas lanças da falange grega e macedônia forneceu muito da influência psicológica que permitiu a Alexandre o Grande conquistar o mundo conhecido. A influência psicológica proporcionada pela cerca de lanças foi tão poderosa que a falange foi ressuscitada na Idade Média e usada com sucesso na era dos cavaleiros montados. Em última análise, a falange só foi substituída pelo advento da postura superior e da influência psicológica proporcionada pelas armas de projétil de pólvora.


O segundo corolário da relação de distância é o fato de ser muito mais fácil desferir um golpe cortante do que um golpe penetrante. Perfurar é penetrar, enquanto cortar é contornar ou negar o objetivo de penetrar na essência do inimigo. Para um soldado armado de baioneta, lança ou espada, sua arma se torna uma extensão natural do seu corpo, um apêndice.


Os romanos aparentemente tinham um problema sério com seus soldados não querendo usar golpes penetrantes, pois o antigo historiador tático romano Vegécio enfatizou esse ponto longamente em um texto intitulado "Não cortar, mas empurrar com a espada". Ele diz:


"Eles também foram ensinados a não cortar, mas sim a golpear com suas espadas. Pois os romanos não só zombavam dos que lutavam com o fio daquela arma, mas sempre os consideravam uma conquista fácil. Um golpe com as pontas, embora feito com muita força, raramente mata, pois as partes vitais do corpo são defendidas pelos ossos e pela armadura. Pelo contrário, uma facada, embora penetre apenas cinco centímetros, geralmente é fatal."


Dave Grossman em sua obra cita Bob McKenna, um soldado profissional e colunista de revista, que baseia-se em mais de dezesseis anos de serviço militar ativo na África, América Central e Sudeste Asiático para entender o que ele chama de "brutalidade íntima" das mortes por baioneta. "O pensamento de aço frio deslizando em suas entranhas", diz McKenna, "é mais horrível e real do que o pensamento de uma bala fazendo o mesmo – talvez porque você possa ver o aço chegando." Essa poderosa repulsa por ser morto com aço frio também pode ser observada em soldados indianos amotinados capturados durante o Sepoy Mu tiny de 1857, que "imploraram pela bala" suplicando para serem executados com um tiro de rifle em vez de baioneta.


Em registros histórico de batalhas observa-se que primeiro, a vasta maioria dos soldados que se aproximam do alcance da baioneta com o inimigo usa a coronha da arma ou qualquer outro meio disponível para incapacitar ou ferir o inimigo, em vez de espetá-lo. Em segundo lugar, quando a baioneta é usada, o alcance próximo ao qual o ato é feito resulta em uma situação com enorme potencial para trauma psicológico. E, finalmente, a resistência a matar com a baioneta é igual apenas ao horror do inimigo por ter feito isso com ele. Assim, nas cargas de baioneta, um lado ou outro invariavelmente foge antes que ocorra o verdadeiro cruzamento das baionetas. Tanto que o combate real de baioneta é extremamente raro na história militar. Grossman relata que o general Trochu do exército francês do século XIX viu apenas uma luta de baioneta em toda sua vida de soldado, e foi quando unidades francesas colidiram por acidente com um regimento russo no nevoeiro pesado da Batalha de Inkerman na Guerra da Crimeia em 1854. E em esses raros combates de baioneta ferimentos de baioneta reais eram ainda mais raros.


Quando esse evento incomum ocorre, e um homem armado com baioneta fica frente a frente com outro, o que acontece mais comumente é qualquer coisa, menos um golpe com a baioneta. Assim como os legionários romanos tiveram que lutar contra a tendência de cortar com suas espadas ao invés de estocadas, os soldados modernos também tendem a usar suas armas de uma maneira que não exige estocadas no corpo do inimigo.


Registros descrevem que, apesar de todo o treinamento de baioneta que os soldados recebem, quando em combate, eles muitas vezes inverteram suas armas e as usaram como clavas. Numerosos relatos de batalhas da Guerra Civil americana indicam a mesma resistência ao uso da baioneta por parte da grande maioria dos soldados de ambos os lados.

Guerra Civil Americana.


Em combates, tanto soldados Ianques quanto Confederados preferiam usar a coronha da arma ou balançar seus mosquetes pelo cano como uma clava, em vez de estripar o inimigo com suas baionetas. Alguns escritores concluíram que uma característica específica desta guerra civil, "irmão contra irmão", deve ter sido a causa da relutância do soldado em golpear seu inimigo com a baioneta, mas as estatísticas de ferimentos de quase dois séculos de batalhas indicam que o que é revelado aqui é um fator básico, visão profunda e universal da natureza humana. Em primeiro lugar, quanto mais perto o soldado se aproxima de seu inimigo, mais difícil é matá-lo, até que ao alcance da baioneta se torne extremamente difícil e, em segundo lugar,


Soldados que enfrentariam bravamente uma saraivada de balas fugirão consistentemente diante de um indivíduo determinado com aço frio de uma lâmina em suas mãos. Geralmente em batalha grupos de soldados armados com baionetas quando veem a distância diminuindo, o avanço vacila, e os dois grupos começam a atirar um contra o outro de distâncias ridiculamente curtas.


Unidades com uma história e tradição de combate e morte inspiram pavor e medo especiais em um inimigo, capitalizando essa aversão natural ao "ódio" manifestado nesta determinação de se envolver em agressão interpessoal de curta distância. Os batalhões Gurkha britânicos têm sido historicamente eficazes nisso, como pode ser visto no pavor que os argentinos tinham deles durante a Guerra das Malvinas, mas qualquer unidade que confia na baioneta captou um pouco do pavor natural com que um inimigo responde à possibilidade de enfrentar um oponente que está determinado a chegar ao "alcance de uma estocada".

Soldados britânicos Gurkha.


Dúvidas? sugestões? Deixem nos comentários. Se gostaram deem um curtir e compartilhem. E não esqueçam de clicar em um dos anúncios para nos ajudar a continuarmos com nosso trabalho. Muito obrigado.

Prof. Marcos Antônio Ribeiro dos Santos

Colaboração:

Dr. David S.




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Grupo Centro de Estudo MARS de Sobrevivencialismo Urbano

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