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Autodefesa: Existe leigo em briga de rua?

Atualizado: 2 de jan.


Infelizmente muitos praticantes de artes marciais vivem em um mundo egocêntrico absurdo, quase infantil, onde ele entende que o estilo de luta que prática é a verdade "filosófica combativa da vida". E ele defende com unhas e dentes o seu estilo como se fosse uma religião, colocando uma devoção cega no lugar da razão. Digo devoção cega pois o objetivo deveria ser autodefesa, se serve ou não serve para situação X ou Y para sua vida, para se proteger e a sua família. Ao contrário começam a propagar posturas e ideias simplórias como já observei em diversas conversas entre eles do tipo:


- Os "leigos" não sabem socar.

- Os "leigos" não sabem chutar.

- Os "leigos" lutam atacando com movimentos apenas para frente.

- Uma mulher de faixa preta de 40 quilos arrebenta um "leigo" de 200 quilos brincando.


Por isso nesta matéria resolvi falar sobre o "leigo". E assim poderemos chegar a conclusão existe realmente isso, "leigo" em briga de rua? Só lembrando que o objetivo deste artigo não é ofender qualquer arte marcial ou sistema, até por que gosto de todas as artes marciais e acredito que todas tem um trabalho específico. O nosso único objetivo aqui é ajudar as pessoas a entender que arrogância na rua pode matar, e que a principal regra da autodefesa é não subestimar seu inimigo. (Leia também: Mindset Combativo: Levar desaforo pra casa?)



1. Existe faixa preta em briga de rua?


Em primeiro lugar vamos tentar classificar o que é "leigo". Leigo segundo o dicionário significa: ignorante, amador, aprendiz, desconhecedor, imperito, inexperiente, novato. Ora, se pensarmos que o contrário de leigo é especialista, a questão é: existe especialista em briga de rua? Ao contrário de uma academia onde se tem um ambiente controlado, a rua impera o caos. Por mais próximo do real que você treine nunca vai chegar nem perto, de como seu corpo ou o ambiente funcionam e se interagem em uma situação de combate extremo. Em uma academia temos um ambiente controlado, com professor supervisionando (ou pelo menos deveria), temos respeito entre os colegas (ninguém quer te matar de verdade), temos tatame e protetores corporais (capacetes, luvas, protetores bucais etc).


Então o treinamento constante e próximo de situações reais é extremamente necessário, funcionam como um condicionamento para você ter uma boa resposta na situação de crise, mas mesmo assim você deve ter consciência que no momento do conflito tudo estará a seu desfavor até seu organismo: visão de túnel, perda de coordenação motora fina, aceleração do batimento cardíaco são alguns exemplos. A arrogância de alguns praticantes é tão grande que já ouvi pelo menos uma duas vezes em rodinha de faixas pretas eles falarem:


"_ Nós que somos treinados, conseguimos ver os movimentos em câmera lenta quando olhamos uma briga de rua."


Só que é curioso pois alguns desses praticantes que falavam isso posteriormente quando se depararam em situações reais não conseguiram aplicar nem cinco por cento do seu aprendizado na rua, mesmo tendo praticado exaustivamente "movimentos coreográficos simulando lutas". Isso por um motivo óbvio, estavam mais preocupados em diminuir e subestimar as outras pessoas "leigas" do que focar e investir no seu treinamento para deixa-lo cada vez mais dinâmico. Quem quer desenvolver sua autodefesa precisa deixar a vaidade de lado e compreender que na rua impera o "caos". Muitas pessoas que nunca entraram em nenhuma academia, nunca foi ensinado a socar, segurar perna de ninguém, usar uma faca, um bastão, ou tacar uma pedra, usar uma cadeira como arma, porém o fazem com grande habilidade ou destreza. Por que? Simples, por que o combate é uma coisa que faz parte do ser humano, somos animais caçadores/coletores como bem descrito no livro "Sapiens – uma breve história da humanidade de Yuval Noah Harari.


Então desde há 50 mil anos fabricamos armas, lutamos e caçamos para podermos nos vestir, nos alimentar, para nos proteger desde animais selvagens até dos nossos semelhantes. Mas ao longo da nossa história devido a revolução técnossocial esquecemos disso, esquecemos que somos caçadores/ guerreiros por natureza. Então para aprender a dar um simples soco, ou usar uma faca entramos em uma academia, pagamos mensalidades, e somos ensinados a forma "mais profissional e correta de se defender". Porém, quando nos deparamos com aquelas pessoas que são lutadores por natureza, predadores natos, muitas vezes nos damos muito mal com nossas "técnicas perfeitas adestradas", por que não nos preocupamos em testá-las ou adaptá-las.


Tem muitas pessoas que nasceram e cresceram em ambientes difíceis, competitivos, e violentos, devido a isso já se envolveram em brigas desde crianças, muitos até tomaram gosto por isso. Começaram a entrar em brigas de rua, briga em campinho de futebol, bares, baladas só pelo prazer da agressão física, que desempenham muito bem, desenvolvendo uma técnica muito natural aprendida de maneira prática e intuitiva que funciona muito bem para ele. Vários indivíduos que nunca aprenderam um único "estilo de luta" coleciona várias páginas de ocorrências policiais de lesão corporal com orgulho, sempre contando suas façanhas, os famosos "valentões".


Dezenas de indivíduos que nunca fizeram um curso de arma branca já esparramaram as tripas de várias pessoas em brigas de bar com sua peixeira. E mesmo assim certos praticantes se acham especial por que alguém lhe disse que suas técnicas são especiais: chute no saco, dedo no olho, golpe na garganta? Desculpe, mas essas técnicas só são "secretas", talvez para o professor que disse isso, e é bem provável que mesmo ele não acredite nisso, só está falando isso para impressionar o aluno para parecer que sua arte marcial é a "melhor".


Não existe problema nenhum você valorizar a sua arte marcial e o seu grau de conhecimento, mas busque manter sempre o seu treinamento o mais próximo da realidade. Sempre questione e teste junto com algum colega se suas técnicas funcionam de verdade. E busque com o tempo fazer cursos ligados a prevenção e área de segurança. O objetivo da autodefesa é você se defender e aqueles que ama e não entrar em jogo de autoestima vazio, onde as pessoas que não praticam nada são leigas e não representam perigo. Se você expandir a sua mente, e sair da zona de conforto estará também ajudando seus futuros alunos a sobreviver.



2. Especialistas X leigos


Darei aqui quatro exemplos sobre a desmitificação do leigo X especialista.


1) O primeiro já tinha narrado em outro artigo. Um professor de tiro que conheci há mais de 20 anos atrás com dezenas de cursos e que era profissional em área de segurança, ocupando cargos de liderança durante anos foi morto em uma ocorrência por um menor infrator de 11 anos com um revolver 38, que não tinha um centésimo de sua experiência e conhecimento técnico.


2) Segundo exemplo: Há alguns anos um segurança de supermercado foi abordar um menor que estava furtando dentro do estabelecimento. O adolescente rapidamente sacou uma faca que trazia escondido e furou a coxa do profissional e fugiu. Infelizmente tentaram socorrer, mas havia atingido a artéria femural, morreu depois de vinte minutos.


3) Um outro exemplo foi de um "mestre" de um determinado sistema tradicional de autodefesa que conheci que agia de forma super arrogante e afetada parecendo um personagem de filme oriental. Presenciou uma tentativa de assalto dentro de um açougue, ele estava na fila de atendimento no momento. Não teve duvidas, foi para cima dos assaltantes, só que os criminosos infelizmente não devem ter assistido os mesmos filmes que ele e atiraram na barriga dele, e fugiram. Por incrível que pareça ele sobreviveu e ficou mais arrogante ainda contando que o "seu sistema" salvou a sua vida, em uma situação em que um "leigo com certeza estaria morto, pois não teria um corpo tão resistente".


4) Outro caso, não tão grave quanto os anteriores, mas não menos ilustrativo foi um fato que presenciei há uns doze anos atrás em uma academia de arte tradicional, um aluno faixa branca que estava lá havia apenas seis meses deu uma surra em um faixa preta super arrogante e vaidoso que se considerava uma "pessoa superior" e não respeitava os colegas da academia. O fato é que este aluno faixa branca já era uma pessoa vivida, já havia praticado outras artes marciais, inclusive tinha feito um ano de jiu-jítsu em outra academia segundo nos contou depois. Esse faixa preta passou dez minutos mais vergonhosos que poderia imaginar, sendo jogado de um lado para o outro e imobilizado de todas as formas.


Entenda: O praticante pode ser um especialista no "sistema de arte marcial que "pratica", mas nunca será um especialista em "todas" as situações de rua, pois até um policial experiente está sempre se confrontando com situações novas a todo momento. Na rua o que impera é o o caos: indivíduos maiores que você, mais fortes, armados e/ ou em maior número, e com intenção de te machucar e até matar. Então quanto mais coreografado for o sistema, com movimentos repetitivos praticados sempre em determinada sequência menor será a efetividade diante de um mundo sem regras. Mesmo agentes de seguranças com cursos operacionais de alto nível com anos de treinamentos infelizmente acabam mortos na realidade da rua. A verdade é que em um país como o Brasil com mais de 150 facções criminosas espalhadas em todos os estados você nunca sabe que está em sua frente, e o que ele é capaz de fazer.


Claro que como disse anteriormente é importante você ser graduado dentro de algum sistema, para ter uma boa base para montar sua autodefesa e constar no seu currículo, mas o fato ser graduado em determinado sistema por si só não basta para abranger "todas" as situações de rua, não faz de você um "guarda costa completo". Dentro do universo da área de segurança, combate corpo a corpo é apenas uma parte.


Eu mesmo pratico artes marciais desde os nove anos de idade, trabalho em área de segurança há vinte e dois anos, dei aula de combate urbano, prevenção e segurança durante anos, e hoje sou professor universitário de Direito Penal, Criminalística e Psicologia Forense, mas acredite sempre continuo aprendendo, não tem como você dizer que já conhece tudo, o conhecimento é fluído. Saber imobilizar, dar quedar, trocar socos, ter noção de luta de solo, usar equipamentos (bastão, lâminas) é importante mas é uma pequena parte dentro de um universo muito maior de matérias de autodefesa. Autodefesa é prevenção, treino, e muito estudo em diversas áreas (uso progressivo de força, tiro defensivo/ofensivo, legislação, segurança eletrônica, primeiros socorros, criminalística, etc). Eu entendo que para alguns que preferem acreditar que sabem tudo, é mais confortável ficar na zona de conforto do que ir atrás de mais conhecimento, mas a rua não se preocupa com opiniões. Então busque sempre treinar o seu sistema com seriedade, mas também procure com o tempo outros cursos ligados a área de segurança e prevenção.


O fato é que o Brasil já bateu vários recordes anuais de mortes pela violência urbana. Vivemos uma guerra não declarada, e como disse acima existem mais de 150 facções espalhadas pelos estados brasileiros (Confira em nosso sistema confac, o contador de facções criminosas e conheça as facções criminosas existentes em cada estado). Só em 2017 foram 65 mil homicídios e latrocínios (roubo seguido de morte) e 62 mil estupros, enquanto países com guerra civil declarada como a Síria a média é de 50 a 52 mil homicídios ao ano.


Na rua:

. Não tem graduação de faixa;

. Não tem divisão de categoria por peso, tamanho, sexo ou idade;

. Não tem regras;

. Não tem Juiz;

. Não tem tatame;

. O inimigo pode estar com alguma arma escondida (faca, ou arma de fogo);

. O inimigo pode estar com amigos, e alguns esperando para te atacar desprevenido;

. Na rua não tem honra, o inimigo pode te atacar pelas costas;

. Ficar aleijado ou ser morto é uma grande possibilidade;

. Morrem centenas de policias e agentes de segurança por ano;

. No Brasil tem mais de 150 facções criminosas espalhadas pelo país, você nunca sabe quem está na sua frente, seja em briga de rua, trânsito, bar, etc;

. Só em 2017 foram mais de 65 mil vítimas de homicídios e latrocínio (roubo seguido de morte) no Brasil.



Atenção: Como disse antes o principal objetivo deste artigo, não é falar mal ou ofender qualquer arte marcial ou sistema que você pratica, então não seja infantil. É um alerta para que você nunca subestime um inimigo, ou se superestime, caindo na armadilha de pensar nos outros como 'leigos" e você como "invencível". Mantenha seu treinamento, faça seu melhor e espere o pior, sempre com disciplina, determinação e foco. E no momento do confronto real seja o mais feroz, brutal, e agressivo que puder.


Aprenda humildade com os mestres:






Obras recomendadas:


a) Livro:


b) Filme

O filme "A arte de lutar" mostra um garoto que é perseguido por valentões na escola, e em sua jornada por encontrar uma forma de se defender se depara com vários professores de artes marciais ruins, até encontrar um que entende da realidade das ruas.


Lembre-se: O sobrevivencialista e combatente urbano faz seu próprio caminho, é o seu próprio mestre, não procure por um Mestre Yoda pra chamar de seu. Seja questionador, faça cursos em lugares credenciados com profissionais com experiência em área de segurança. Afinal autodefesa é um investimento para proteger a sua vida e daqueles que o cerca. Sempre fi.

Dúvidas? Sugestões? Deixem nos comentários. E nos ajude a lutar por uma internet livre onde possamos aprender e compartilhar conhecimento, sem restrição.

Prof. Marcos Antônio Ribeiro dos Santos


E não esqueça de visitar nossa biblioteca sobrevivencialista virtual, clicando na imagem abaixo:



Sobreviva a tudo e a todos. Seja o seu próprio Mestre. Autodefesa levada à sério.


Grupo Centro de Estudo MARS de Sobrevivencialismo Urbano

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