• Marsurvivor

Autodefesa: Existe leigo em briga de rua?


Infelizmente muitos praticantes de artes marciais vivem em um mundo egocêntrico absurdo, quase infantil, onde ele entende que o estilo de luta que prática é a verdade "filosófica combativa da vida". E ele defende com unhas e dentes o seu estilo como se fosse uma religião, colocando uma devoção cega no lugar da razão. Digo devoção cega pois o objetivo deveria ser autodefesa, se serve ou não serve para situação X ou Y para sua vida, para se proteger e a sua família. Ao contrário começam a propagar posturas e ideias simplórias como já observei em diversas conversas entre eles do tipo:


- Os "leigos" não sabem socar.

- Os "leigos" não sabem chutar.

- Os "leigos" lutam atacando com movimentos apenas para frente.

- Uma mulher de faixa preta de 40 quilos arrebenta um "leigo" de 200 quilos brincando.


Por isso nesta matéria resolvi falar sobre o "leigo". E assim poderemos chegar a conclusão existe realmente isso, "leigo" em briga de rua?



Existe faixa preta em briga de rua?


Em primeiro lugar vamos tentar classificar o que é "leigo". Leigo segundo o dicionário significa: ignorante, amador, aprendiz, desconhecedor, imperito, inexperiente, novato. Ora, se pensarmos que o contrário de leigo é especialista, a questão é: existe especialista em briga de rua? Ao contrário de uma academia onde se tem um ambiente controlado, a rua impera o caos. Por mais próximo do real que você treine nunca vai chegar nem perto, de como seu corpo ou o ambiente funcionam e se interagem em uma situação de combate extremo. Em uma academia temos um ambiente controlado, com professor supervisionando (ou pelo menos deveria), temos respeito entre os colegas, temos tatame e protetores corporais (capacetes, luvas, protetores bucais etc). Então por mais que você tenha especializações e faixas pretas, o máximo que conseguirá é um direcionamento de como proceder para sobreviver na situação real. Pois no momento do conflito tudo estará a seu desfavor até seu organismo: visão de túnel, perda de coordenação motora fina, aceleração do batimento cardíaco são alguns exemplos.


A arrogância de alguns praticantes é tão grande que já ouvi pelo menos uma duas vezes em rodinha de faixas pretas eles falarem:


"_ Nós que somos treinados, conseguimos ver os movimentos em câmera lenta quando olhamos uma briga de rua."


Só que é engraçado pois muitos desses praticantes quando em situações reais não conseguiram aplicar nem cinco por cento do seu aprendizado na rua, mesmo tendo praticado exaustivamente "movimentos coreográficos simulando lutas". Isso por um motivo óbvio, na rua impera o "caos". Muitas pessoas nunca entraram em nenhuma academia, nunca o ensinaram a socar, segurar perna de ninguém, usar uma faca, um bastão, ou tacar uma pedra, usar uma cadeira como arma, porém o fazem com grande habilidade ou destreza, por que? Simples, por que o combate é uma coisa que faz parte do ser humano, somos animais caçadores/coletores como bem descrito no livro "Sapiens – uma breve história da humanidade de Yuval Noah Harari.


Então desde há 50 mil anos fabricamos armas, lutamos e caçamos para podermos nos vestir, nos alimentar, para nos proteger desde animais selvagens até dos nossos semelhantes. Mas ao longo da nossa história devido a revolução técnossocial esquecemos disso, esquecemos que somos caçadores/ guerreiros por natureza. Então para aprender a dar um simples soco, ou usar uma faca entramos em uma academia, pagamos mensalidades, e somos ensinados a forma "mais profissional e correta de se defender". Porém, quando nos deparamos com aquelas pessoas que são lutadores por natureza, predadores natos, muitas vezes nos damos muito mal com nossas "técnicas perfeitas adestradas".


Tem muitas pessoas que nasceram e cresceram em ambientes difíceis, competitivos, e violentos, devido a isso já se envolveram em brigas desde crianças, muitos até tomaram gosto por isso. Começaram a entrar em brigas de rua, briga em campinho de futebol, bares, baladas só pelo prazer da agressão física, que desempenham muito bem, desenvolvendo uma técnica muito natural aprendida de maneira prática e intuitiva que funciona muito bem para ele. Vários indivíduos que nunca aprenderam um único "estilo de luta" coleciona várias páginas de ocorrências policiais de lesão corporal com orgulho, sempre contando suas façanhas, os famosos "valentões".


Dezenas de indivíduos que nunca fizeram um curso de arma branca já esparramaram as tripas de várias pessoas em brigas de bar com sua peixeira. E mesmo assim você se acha especial por que alguém lhe disse que suas técnicas são especiais: chute no saco, dedo no olho, golpe na garganta? Sério isso? Desculpe desfazer sua fantasia mas essas técnicas só são "secretas", talvez para seu professor que disse isso (E é bem provável que mesmo ele não acredite nisso).



Especialistas X leigos


Darei aqui três exemplos sobre a desmitificação do leigo X especialista. O primeiro já tinha narrado em outro artigo. Um professor de tiro que conheci há mais de 20 anos atrás com dezenas de cursos e que era profissional em área de segurança, ocupando cargos de liderança durante anos foi morto em uma ocorrência por um menor infrator de 11 anos com um revolver 38, que não tinha um centésimo de sua experiência e conhecimento técnico.


Um outro exemplo foi de um "mestre" de um determinado sistema tradicional de autodefesa que conheci que agia de forma super arrogante e afetada parecendo um personagem de filme oriental. Presenciou uma tentativa de assalto dentro de um açougue, ele estava na fila no momento. Não teve duvidas, foi para cima dos assaltantes, só que os criminosos infelizmente não devem ter assistido os mesmos filmes que ele e atiraram na barriga dele, e fugiram. Por incrível que parece ele sobreviveu e ficou mais arrogante ainda contando que o "seu sistema" salvou a sua vida, em uma situação em que um "leigo com certeza estaria morto, pois não teria um corpo tão resistente".


Outro caso não tão grave, mas não menos ilustrativo foi um fato que presenciei a uns doze anos atrás em uma academia de arte tradicional, um aluno faixa branca que estava lá havia apenas seis meses deu uma surra em um faixa preta super arrogante e vaidoso que se considerava uma "pessoa superior" e não respeitava os colegas da academia. O fato é que este aluno faixa branca já era uma pessoa vivida e já tinha feito um ano de jiu-jítsu em outra academia segundo nos contou depois. Esse faixa preta passou dez minutos mais vergonhosos que poderia imaginar, sendo jogado de um lado para o outro e imobilizado de todas as formas.


Entenda: Você pode ser um especialista no "seu" sistema de arte marcial, mas nunca será um especialista na rua, pois na rua o que impera é a sobrevivência primitiva, o caos. Quanto mais coreografado for o sistema que você pratica, com movimentos repetitivos praticados sempre em determinada sequência menor será a efetividade diante de um mundo sem regras. Até agentes de seguranças com cursos operacionais de alto nível com anos de treinamentos infelizmente acabam mortos na realidade da rua. Você é superior por que aprendeu a socar em uma academia de sobreloja na esquina?



Na rua:


. Não tem graduação de faixa

. Não tem regras;

. Não tem Juiz;

. Não tem tatame;

. Ficar aleijado ou ser morto é uma grande possibilidade;

. Morrem centenas de policias e agentes de segurança por ano.


Então deve questionar de maneira honesta: quem é o "leigo" em briga de rua? O brigão de rua que tem anos de experiência tomando soco e distribuindo pancada, e levando todo tipo de violência para as pessoas em seu caminho, com diversos antecedentes criminais de lesão corporal, ou o cara que passou a vida toda estudando um só tipo tipo de luta dentro de uma academia em um ambiente controlado com colegas, onde o foco era apenas luta em campeonatos com regras onde se ganha quem tiver mais pontos?


O principal objetivo deste artigo é para que você nunca subestime um inimigo, ou se superestime. Mantenha seu treinamento, faça seu melhor e espere o pior, sempre com disciplina, determinação e foco. E no momento do conforto real seja o mais feroz, brutal, e agressivo que puder.


Lembre-se: O sobrevivencialista e combatente urbano faz seu próprio caminho, é o seu próprio mestre, não procure por um Mestre Yoda pra chamar de seu. Seja questionador, faça cursos em lugares credenciados com profissionais com experiência em área de segurança. Afinal autodefesa é um investimento para proteger a sua vida e daqueles que o cerca. Sempre fi.

Dúvidas? Sugestões? Deixem nos comentários. E nos ajude a lutar por uma internet livre onde possamos aprender e compartilhar conhecimento, sem restrição.

Prof. Marcos Antônio Ribeiro dos Santos


E não esqueça de visitar nossa biblioteca sobrevivencialista virtual, clicando na imagem abaixo:



Sobreviva a tudo e a todos. Seja o seu próprio Mestre. Autodefesa levada à sério.


Grupo Centro de Estudo MARS de Sobrevivencialismo Urbano

36 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo